03 agosto 2014

Rendição...

Rendo-me a tristeza como que para me castigar de ter perdido a alegria... As desilusões, os fracassos, as más memórias...
Fizeram com que eu caísse, sem ter forças para levantar, por isso sinto-me assim vazia como se fosse um nada... Não consigo erguer a cabeça e seguir em frente…
Sim eu sei que os dias são dádivas, e que devemos tentar sempre recomeçar… mas, e se sinto que estou a desperdiçar o meu tempo? Hoje até pode ser um dia maravilhoso, mas amanhã, sei que terei as mesmas dúvidas, as mesmas incertezas, as mesmas tristezas e continuarei fazendo as mesmas perguntas...
Não é fácil...
Definitivamente não é mesmo nada fácil ser feliz…



07 junho 2014

Interstício...

Outra noite de insónia… obriga-me a levantar e percorrer o pequeno corredor em direção a casa de banho, queria banhar o rosto na esperança de limpar a ausência de sono… de repente encarei-me no espelho e reparei como tenho andado distraída, ainda no outro dia me olhei e nem percebia os anos, mas nesta madrugada o rosto que me contempla é de uma mulher mais velha… arreganhei os dentes para a própria imagem, fazendo uma cara enlouquecida, indignada e assustei-me…
Imediatamente, transformei as caretas ensandecidas numa máscara calma e tranquila. Dei um sorriso benévolo para mim mesma e pensei em como aquele sorriso estava quase perfeito… Só faltava o olhar resignado, compreensivo e amoroso… pronto, estava perfeito…
Voltei para o quarto e deitei-me. Apaguei a luz e nada. Tornei a acender a luz e, embora já seja madrugada, resolvia ligar o portátil que está sempre na beira da cama ansioso para iluminar o quarto escuro, este é um processo infalível para chamar o sono…

Porém, nada venceu a insónia e esta noite deixa-me pelo menos, uma ruga a mais na encadernação da minha vida… não é fácil estar assim no interstício do amor ou será da solidão?

21 maio 2014

Tenho dias...


Nesta tarde imprópria deslocada do tempo real, a chuva é insistente e assustadoramente fria…
voam os pensamentos, haverá algo mais incómodo que o amor…
talvez a habituação a sua ausência…
Que sei eu da vida… do amor… da felicidade… do mundo…
A vida…
caminhos paralelos que embora traçados inesperadamente sofrem de uma rotineira lentidão que magoa…
O Amor…
é sempre surpresa e tantas vezes arrependimento, mas deixa sempre marcas profundas que nos cobrem o olhar…
A felicidade…
simples virgulas que separam a tristeza…
O mundo…
o real companheiro de todos os sorrisos forçados…
Começo a acalmar e a morrer aos poucos desta ânsia de tudo ser e tudo querer…
Já não me conheço e sinto que me perdi em algum recanto desta existência sem sentido…
Um dia o sol não nascerá, será esse o momento de paz?

17 maio 2014

Saudade...


Quando chega a hora dos mágicos cansaços,
entrego-me nos braços da saudade  e toda a noite sonho...
                  e vagamente acordo...
os lábios finos abrem-se num tremor e os meus  olhos tristes sorriem...

tenho a alma toda envolvida na carícia dorida duma saudade...

11 março 2014

Quando...

quando a espera é o caminho e o caminho é longo e a lonjura infinita…
quando o infinito se bebe com demora e a demora se faz eterna…
quando eternidade é a palavra repetida pelas manhãs e a palavra é o fruto que se estende pelos lábios…
quando os lábios são a flor do beijo e há flores a murmurar o tempo e o tempo é o tempo do caminho…
eu sei… 
e eu aguardo…
a lonjura… 
o eterno… 
a palavra… 
e o beijo…

25 fevereiro 2014

Vazia...

Fomos duas rotas, dois trajectos, demo-nos ao tempo que nos abrigou e dele fizemos breves instantes de alegria e prazer, fomos o que o tempo despejou e não quis. Atravessamos cidades, foi meu o teu princípio e teu o meu fim, vimos tanto vazio e quanto mais ruído mais se via o vazio.
A cidade estava tão triste, mas naquele lugar havia um porto seguro, havia o toque, havia o beijo, havia palavras, as boas e as más, as inúteis e as de morte, era preciso tudo, dar tudo para cairmos de rastos no vazio.
Num instante a vida cuspiu-nos para um canto qualquer e ali estávamos, o teu corpo diante do meu, nós duas, sem distância que interpõe o sonho e a crueldade, o teu corpo nu oferecendo-se agora a minha boca, fizemos o que nos foi pedido, foi um instante roubado ao tempo, fomos uma rota, um trajecto, um acidente, uma certeza que não haveria distância entre os nossos corpos.

Mas hoje estou tão vazia como o último copo da prostituta que não teve ninguém…

21 fevereiro 2014

Vencida...

Cheguei a este momento de vida, vencida pelo cansaço...
já não procuro as ruas cheias de pessoas expostas, nem sequer consegui ser uma delas...
escrevi tudo o que falhei, tudo o que me derrubou e aos poucos o mundo abandona-me mais, cansei de cuspir no papel a miséria que nos cerca todos os dias…
Anseio pelo dia que esquecerei o meu nome...
ou então o venderei a uma qualquer amante que queira uma última ilusão, já não me extasiam as palavras...
faço o que quero com elas, mas com o corpo não...
anda...
vai...
abandona-me ou então fica com as minhas palavras...
deixa-as que cubram a tua pele e depois cospe-as com o mesmo ódio que agora sinto do mundo…
Vou vestir-me de preto e ficarei mais bela que nunca para o meu último fôlego…