28 outubro 2008

... Adormecida...


Repouso em mim e sofregamente respiro este profundo amargo que me envolve… Presa a garras eternas, descabidas de tamanha incoerência, vivo cada momento como se me instalasse nesse recobro infinito em que me deleito em tempos que jamais conhecerão fim.
Jaz em mim tal melancolia cruel que me assombra a cada instante, não sendo no entanto pesadelo em mim, mas um sopro de vida que renasce, me faz renascer e me adormece com um abraço acolhedor.
Tortuoso será então este sentir e injustificável perante inúmeros seres que preenchem este físico mundo que me rodeia, pois congratulo-me neste tormento de mim…
Suspiro, respiro… E nesse instante mais um punhal me atinge e… Adormeço… Imóvel… Meu corpo é então o vilão de todos tempos, uma armadura que visto e vive em mim como maior inimigo…
Vivo então adormecida em corpo dormente, renascida em pensamentos, alimentos natos desta alma… E em palavras que escrevo, recordo o primeiro parágrafo…
Recuo no tempo, nesses minutos que contaram desde o primeiro borrão de tinta… Ou talvez…
Horas…
Dias…
Meses…
Anos…
Uma vida…
De um sonho inatingível, de quimeras repisadas, de palavras repetidas… O sentido não chega e permaneço, neste meu adormecer constante, sonhando que um dia… Talvez um dia… Este jogo de palavras seja transcrição pura deste sentir…
Mas o ágil de mim não são estas mãos que comandam as palavras que escrevo… É um todo de uma complexidade tal que eu própria não descodifico para linguagem do comum dos mortais.
Meus pensamentos, minha alma… Quem sois, quem serão… Um dia… Em que tudo findará?
Será um eterno prolongado ou simples passagem mortal…?
Sem rumo, apenas adormecida…
Em mim… Quiçá…
Eternamente…
Adormecida…

24 outubro 2008

Liana...

Hoje... penso em tanta coisa e não penso em nada, não sei se te fale de mim, de ti, dos outros, do tempo, do céu, da terra, das coisas ou das noites... das noites, sim, vou-te escrever das noites, dos dias, das horas, daqueles momentos começados inesperadamente quando uma voz te dá o alento de rever a sua sombra na noite…
Essas horas contigo, foram horas vivas e cheias de cor, a minha alma expectante e serena agarrava uma a uma todas as tuas palavras… o doce mover dos teus lábios cor de fogo… partilhamos ilusões e certezas e a noite vasta e contínua, foi caminhando... caminhando... até ao momento que por mero acaso te pude ver adormecer…
Como é bonito o teu dormir… Nos intervalos do teu descanso, ao acaso sem âncora, vagueei no tempo, e o tempo, esse vil traiçoeiro, chamou pela madrugada e eu fiquei sem amparo…

Por agora, não vou prender mais com falas o meu pensamento, quero deixar reinar o silêncio, porque é nele que está o melhor verso. Por favor vento, corre por aquela estrada e leva o meu pensamento e diz-lhe a ela, apenas a ela… que a minha alma, igual à luz do dia derrama-se no céu azul em ondas de ternura…

23 outubro 2008

...(in)existência... (in)temporal...


(in)satisfeitos… Pelas
(in)coerências de trilhos…
(in)definidos… Sejamos então
(in)felizes nestes sentir
(in)constante… Pois um dia,
(in)delicadamente dormireis na vossa
(in)sanidade…
(in)finitamente…

22 outubro 2008

... Quem sois...


Que sabeis do mundo, oh sociedade perdida?

Sois vermes rastejantes que lambeis todo um luxo mesquinho...

Que sabeis do puro sentir?

Pois que neste inferno por vós criado, louco é aquele que rasga a pele do seu corpo e se solta em murmúrios chorosos de alma que sofre, sorri..

Vossos tronos e seus adornos são excrementos, são pedaços apodrecidos por vós, em vós...

Soltai-vos em vós, pois só saboreando as próprias entranhas saberão o acre da dor e o doce da felicidade...

20 outubro 2008

Liana...

Graças ao teu empenho e apesar do dia já se ir esgotando, pude observar os pormenores da paisagem da serra a perderem-se na escuridão, um silêncio constrangedor mas extremamente sereno, dentro de mim, vagos receios, mas naqueles momentos, só nós existimos... e eu pude então admirar aquela que me prende, doce figura que para meus olhos fosse mais formosa, seria impossível.

Quando avisto os teus olhos, vejo sempre uma cor diferente, brilhante, incandescente, sublime, que domina toda a minha alma... e eu, não consigo ver um arco-íris mais belo que o teu contagiante suave sorrir…

O sono toca-me de manso, o céu já anuncia o dia, sinto que ficou entre nós uma ponte azul que nem a lua nem o sol conseguirão desvanecer… por ela caminharei de mansinho até um dia chegar a ti…

17 outubro 2008

Perdida...

Quem diz ao meu coração qual a estrela a seguir, para amanhar o meu destino... tudo o resto me parece tão inevitável... assim como a ave aprende a voar, e a planta floresce com o calor do sol... ai que fácil seria assim pensar…
O meu pensamento voa cada vez mais longe, mas tudo o que eu quero é cumprir o meu destino… existo porque sei que devo viver e morrer por alguém… existo porque algures sentirei os olhos que serão a minha vida… existo porque ainda espero a paz que só o amor garante…
Perdi o comando da minha alma forte e ardente que outrora a nada se inclinava, mas agora, vela pelos mistérios de amor, tem a cor da noite e da lua e anda humildemente perdida...
Sonho um dia, livre ao vento, soltar a alma e o pensamento, curvar-me aos teus desejos, desmaiar com os teus carinhos, renascer com os teus beijos…

Onde estás tu…

16 outubro 2008

... Retalhos...


Retalhos que findam num tempo que deambula entre a fogosa rapidez e a inércia anestesiante…
Retalhos deste ser numa dimensão paralela, retalhos de vida, retalhos de dor, retalhos de prazer…
Retalhos de um nada atordoante entre a inexistência de mim e a minha própria plenitude…
Retalhos…
Peças que te deixo amor, soltas numa vida que te abro, numa existência que te confio…
Peças que permanecem, ao acaso, dispostas no limiar da razão e da loucura, pois que a tua distracção é tal que não sentes o sabor salgado que me banha o rosto…

Retalhos amor… Retalhos de mim… Retalhos de ti… Retalhos da podridão que nasce em mim… Retalhos…

Escassos raios de luz me atravessam e vivo neste mar imenso de escuridão, que seu eterno companheirismo me embala e me adormece… Pois que a luz me fere, me trespassa, me dilacera a alma e fere todo o meu ser…

Retalhos de luz… Um todo de escuridão…

Retalhos dançantes, saboreando a doce melodia da melancolia…
Retalhos…
…de Vida…
…de Dor…
…de Prazer…

Retalhos…